Crónica

Francisco Mouta Rúbio

A matéria-prima das crónicas são os sonhos

18 de Julho, 2022

Tinta por uma linha.

A primeira de uma série de crónicas escritas por Francisco Mouta Rúbio, a publicar quinzenalmente, sob o mote “Tinta por uma Linha”. Sempre com Lisboa como tema ou motivo. Sempre com as ilustrações do artista Dualgo a acompanhá-las.

Artéria é o nome do novo projecto sobre a tua cidade, já ouviste falar? Não, mas acho boa ideia assumir o risco. Qual risco? Atirar-me de cabeça e escrever sobre esta cidade que me atravessa o olhar, sob o rio suspensa. A cidade onde nasci, vivo e morrerei, dê a especulação imobiliária as voltas que quiser dar. Deve ser simples alinhar toda a tinta que escoa pelas artérias orientais da capital. Haverá alguma dificuldade em apresentar quinzenalmente um texto grandioso mas ligeiro, coloquial e literário, breve mas denso?

Lá ao longe, acenando desde Colares, MEC responder-me-ia que não. Trezentas e sessenta e cinco vezes por ano desde a década de 80, ele, olhando-me através dos seus olhos azul-oxford, que apresentam o hoje como sempre, que fazem explodir uma crónica em gargalhada, afirmaria: não, Francisco, ontem e no futuro estaremos todos mortos e isto foi a forma mais estranha e divertida que encontrei para esgotar a causa das coisas e poder exclamar como é linda a puta da vida.

Resisto, por mais uns instantes, à ideia de escrever um texto astuto mas sábio, épico mas sóbrio, simples e não simplista. Mas como?

Talvez subir ao 797 e tropeçar pelas páginas tantas da biblioteca da Penha de França. Achar uma história pessoal, mas universal, como, certo dia, Enrique Vila-Matas decidiu fazer pela sua cidade nervosa. Na angústia de encontrar um tema para a sua crónica, refugiou-se numa viagem de autocarro pelos bairros da cidade condal.

Transformar as notas de caderno em música dos dias, ouvir como o maestro Gonçalo M Tavares os sons da balança gramatical onde se pesam as palavras da cidade e depois ordená-las.

Ou então, arriscar tratar por tu o coração da Lisboa clandestina, vomitar desgraças do passado e agoiros por vir com a malandrice de Mário Zambujal. E à primeira.

Conduzir uma trotinete até Benfica e surripiar uma conversa de café, encontrar o líquido do nosso cronos como o RAP. Mas sem o humor do RAP, sem a pertinácia do RAP, está claro.

Ir até ao Palácio da Justiça e pedir ao Rui Cardoso Martins que se levante o réu, uma outra vez, transformar aqueles ecos de tragédias, magistrados e sentenças em pragmatismos poéticos sem faca na garganta, apesar da jugular palpitar. Contar uma história, é isso.

Atravessar a Gomes Freire e encontrar Lobo Antunes na mesa de canto d´O Pepe a fixar os loucos de Lisboa, a lembrar a nossa guerra colonial a cada linha, grave. Reprovando quem ousa escrever. Olhar para o outro lado da rua, como numa partida de ténis literária, e assistir na esplanada do Banquete, a outro modo de ser, mas a mesma harmonia na pancada. Zink pousa a caneta seca na toalha de papel e dispara em prosa acelerada sempre que o interpelam.

Descer à Liberdade com a ironia revolucionária do Manuel António Pina, abrindo as janelas de onde jorravam palavras e permitir a poesia fugir pela rua, um verso a cada dia cavalgando num romantismo selvagem.

Chegar ao Campo Grande, contemplar Dulce Maria Cardoso na Biblioteca Nacional brincando com paradoxos, metáforas e lugares incomuns e contando-nos histórias que já não sabemos se são crónica se são fantasia, sabemos que cheiram a verdade e a África. Onde enxergamos o mestre Agualusa, o que é não parece.

Viajam pensageiros abensonhando-se lado a lado, são linhas de Mia Couto. Sintoniza-se mais África, não estivéssemos voando sobre a capital europeia mais africana, e invade esta crónica sobre inícios de crónicas Kalaf. Cronista que descoloniza mentes, convida a dança de fato escorrendo “suégue”. Desabusa do passaporte cosmopolita que parte da nossa Lisboa e segue de Kinshasa a Berlim, da Buraka ao Rio de Janeiro.

Aí, em pleno calçadão, no boteco do posto três, esparramados perante o sol castigador, à nossa espera e de perna cruzada fumando um grã-fino cigarro, encontramos o reacionário, Nelson Rodrigues, junto a seus amigos, Machado de Assis e João do Rio, que se lessem toda esta tergiversação me apelidariam, num óbvio ululante, de idiota da subjectividade.

Para quem escreve como profissão tudo isto deve ser menos ardiloso. Para os que têm uma certa sabedoria, um certo passear no tempo, escrever sobre este tempo deve ser como respirar. Espero que perdoem as frases de um escritor amador que ainda tem direito à sua errância.

Veja mais sobre os trabalhos de Dualgo em: http://instagram.com/du.algo

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