Crónica

António Chagas

Lisboa, pós-COVID, num Domingo qualquer de manhã.

8 de Junho, 2022

No Martim Moniz, a paragem do eléctrico 28 já está pejada de utentes; não é preciso aproximarmo-nos muito para perceber que são turistas, já que exibem despudoradamente os atributos que os diferenciam: mochilas, calções e sandálias, escaldões e pele a cair. Pelo meio das dezenas de estrangeiros, um ou dois locais.

“Isto já não é o 28, agora é um 31!” – invectiva um utente, este visivelmente português – “agora fica-se que tempos à espera e quando o eléctrico vem, não há lugares para nos sentarmos nem espaço para nos vermos uns aos outros”. Como uma qualquer atracção de feira, o eléctrico 28 transformou-se em pouco tempo numa experiência a não perder para o turismo de vivência a que Lisboa se entregou de braços e pernas abertas.

Não será fácil traçar o momento em que esta carreira de eléctricos foi elevada à categoria de uma actividade que representa Lisboa, mas de todas as vezes que um livro ou um filme refere o eléctrico 28 a sua importância agiganta-se e afasta-se da realidade. A viagem impossível e onírica que se faz no filme “Lisbon Story”, de Wim Wenders, com um sonoplasta, Amália e os Madredeus a galgar a Rua das Escolas Gerais, já assumia o eléctrico 28 como um símbolo, portanto é algo que já tem barbas.

O que não se consegue descortinar é porque é que uma carreira que atravessa bairros populares e que se destinava principalmente a transportar os seus habitantes (que, hoje, têm de competir com os turistas para terem acesso a esse serviço público) ganhou tanta projecção entre quem nos visita. Pode ter a ver com a dependência que estes novos turistas exibem relativamente às plataformas digitais: nesse mundo de informações digeridas, em que as cidades se descrevem em dois parágrafos, fica sempre bem incluir uma informação inusitada para que o turista se sinta parte de um “segredo”.

Portanto, dizer “não podem deixar de experimentar o eléctrico 28” numa qualquer rede social ou portal de viagens é suficiente para que as hordas bárbaras que nos visitam iniciem a sua lista de afazeres com uma permanência de horas numa bicha para o eléctrico.

E, aparentemente, nada os desmotiva: a evidente vetustez do transporte é encarada como um ponto positivo para quem visita, pelo pitoresco que encerra; a grande probabilidade de serem alvo de prestidigitadores carteiristas cai na definição das lições de vida; e até mesmo as horas que se gastam à espera da carruagem que nos levará finalmente por um país desconhecido e maravilhoso são consideradas um bom investimento.

Só que isso não é verdade. A experiência do eléctrico 28 nunca deveria ser uma experiência central e definidora do que é Lisboa; nem deveria ser uma fuga conveniente para os operadores turísticos, que assim garantem que os seus clientes de turismo de cidade gastam logo uma manhã ou uma tarde despendendo pouquíssimo dinheiro (se não lhes roubarem a carteira, bem entendido) numa corrida por uma cidade que pára para os ver passar.

Nem Lisboa é somente o que se vê do 28, nem os locais, que necessitam desta carreira para se movimentar, e que não retiram qualquer benefício directo da usurpação de que são vítimas, têm qualquer dever de suportar esta ingerência.

“Se fosse mais novo, ia a pé, mas agora já não consigo. E hei-de ficar em casa fechado só porque o eléctrico vai sempre cheio? Nada disso. Venho para a rua, e digo o que tenho a dizer”.

Lisboa não gosta que a tratem como um parque de diversões.

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