Crónica

Francisco Mouta Rúbio

Tinta por uma linha.

A terceira crónica de Francisco Mouta Rúbio, acompanhada pela ilustração do artista Dualgo.

Ontem vi Aquela Senhora tombar. No passeio concreto, moderno e rebaixado, no início do meu dia tranquilo e solarengo ouvi, ai ai ai, e depois ela tombou. Ali na calçada pegajosa da nossa cidade, entre aderências quadriculares, oferta dos que a deviam lavar, nariz no chão. Aquela Senhora tombou, ai! Insistiu na dificuldade, rasgou a invisibilidade e num instante lá rolou ela em plena General Roçadas, avenida estendida para a ver, coitada, deitada no passeio que ainda se mantém público. E lá fui eu. Um pequeno passo para Aquela Senhora, um grande passo a palavra para quem olhou, se espantou e petrificou. Não recrimino esse alguém que falou lá ao longe: mas precisa de ajuda? Pergunta mais que demais para quem se encontra abaixo de todos. Aos seus olhos, das que ficam presas à porta do café, penduradas num cigarro, de ouro ao peito, à procura da tragédia vindoura, ali estava apenas um outro alguém que errou como se fosse o último. Ainda se tivesse beijado o seu marido como se fosse o último ou tivesse atravessado a rua com o seu passo tímido. Mas o Francisco de Hollanda encontra-se a milhares de quilómetros da General Roçadas, noutras lutas, noutros sambas, tentando zerar o jogo.

Sem temor do ridículo Aquela Senhora clarificou, Eu venho de um sítio onde ninguém quer viver: Bairro do Horizonte, informa-me ela. Eu sei, é a antiga nova Curraleira, e até tem lá um posto médico. Ela atravessa as minhas palavras toscas e ajeita a máscara (habitual para quem utiliza transportes públicos), o joelho, que parece desencaixado, e o saco azul debaixo do braço, onde cabem castiçais, uma boneca de cabelos erráticos ou sacos de plástico. Aquela Senhora afunda-se numa dor escura, mas tem energia de batalhão inteiro. Eu visto uma cara que ninguém quer pintar. Caiu e levantou-se, levantou-se e penso que continua a cair. Aquela Senhora ao levantar-se da queda, não apagou qualquer uma das lágrimas nervosas que recortam o seu rosto, poluído por tanto azar na vida. Sabe que idade tenho? Não? Adivinhe, menino?! Idade indefinível por sulcos cavados numa cara que se pretendia com menos dor. Ignoro as adivinhações etárias e afasto-me enquanto ela continua a falar de coisas de uma vida à distância. Fechada numa realidade que não escolheu, mas que aprendeu a suportar, ensina-nos que não é só com poemas e sonetos que aprendemos a cair. Não há queda definitiva para Aquela Senhora, descumprindo o seu destino a cada dia.

Ao longe, deveria entender melhor aquela senhora, mas o contrário acontece. As palavras desatinadas pela máscara, desvanecidas pelo caminho, que aumenta a nossa distância, transformam-se por segundos em ruído que manifesta a ignorância dos meus ouvidos. O abecedário alterou-se e não me apercebi. O cenário adensou-se num tal mistério verbal na Penha de França que os pássaros começaram a irromper das árvores cantando como se fosse o último, os carros soltando uma nuvem como se fosse a última, as meninas do café atirando um riso tímido e apenas me resta a linguagem que aprendi na melhor escola de samba que ainda não frequentei: a necessidade. No final, a necessidade de nos compreendermos desenha formas estranhas no ar e acho que nos estamos a despedir, com certo cuidado para não haver outro tombo.

Afinal, ninguém tomba por que quer. Mas sabendo que, e talvez, mais cedo que tarde, vamos todos tombar não esqueçamos: quando alguém cai deve haver um outro alguém pronto para nos levantar.

Veja mais sobre os trabalhos de Dualgo em: http://instagram.com/du.algo

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