Crónica

Francisco Mouta Rúbio

Tinta por uma linha.

A quarta crónica de Francisco Mouta Rúbio, acompanhada pela ilustração do artista Dualgo.

  1. Termina a altura do ano em que vivo preocupado. Agosto. Acordo na Penha com um despertar de aldeia sem o galo a cantar, apenas um leve murmurar de um pneu ao longe, uma batida minimalista. Sou cuspido do prédio amarelo e corro para a estrada, lembrando o início de “Vanilla Sky”, encontro uma cidade deserta sem aspas. Sopram lençóis de vento pelas avenidas velhas cheias de ninguém. E descubro que não é sonho, nem à tom cruise, nem desses que são matéria prima para crónicas (cabrão do freud que nos queria úteis até enquanto dormimos). Fico realmente preocupado com esta ausência de carros, de trotinetes anárquicas, das cuspidelas nos passeios. Sigo o passo entediado e na sala de cinema, desnutrida de espectadores, Cassavetes, Gena Rowlands e eu. Os jardins com os seus magros habitantes, eu e uns auscultadores. Lisboa em agosto parece um daqueles sets esquecidos de filme lado B. Enterrado neste pesadelo agostiniano inclino-me sobre a bica, uma água das pedras, um Cortázar e o início desta crónica. Noto, neste café sem cerveja para resfriar terramotos internos, que se apagaram as discussões que resolvem todos os males do país pela manhã e com hálito a martini dos pequeninos. Que pena. Um verso ecoa até ao final da rua deserta, preso nos meus ouvidos. Experimento largá-lo ali mesmo: “é urgente o amor, é urgente um barco no mar”. Ninguém. Ninguém à janela para eugenizar-me: Está calado, filho! Ninguém a quem possa dizer: Não vou poder ir, tenho de escrever. Agosto em Lisboa é uma desgraça. Quem por cá fica, protegendo a cidade da horda turística, sofre até discriminação. Mas ficas cá? A sério? Sozinho? E a fazer o quê? O lisboeta de agosto é o infiel trémulo. Desarranjado pelo cariz destes acontecimentos perturbadores, encaminhei os meus passos para o outro lado da calçada tão suja que não haverá argumento que a limpe. Tropecei em vários museus.

2. Museus com participação de todos os cidadãos, os que foram e os que ficaram, curados pelos responsáveis de Lisboa. Esse mesmo, o Museu do Lixo. Nessa dupla constante, Produção & Consumo, em que nos encontramos entupidos, desistimos de achar o poético. A dificuldade de separar a arte do lixo, no meio deste ruído constante. Arte que precisa de contexto, seleção e edição que vive próxima aos ecopontos. Estes vários museus que se espalham pela nossa cidade são odes à atenção, ao pormenor. Tanta arte esquecida que se confunde com lixo, e nós desatentos a uma separação higiénica da arte. Nelson Molina, que lida com o lixo diário na cidade de Nova Iorque e curador do Treasures in the Trash Museum, e Bordalo II, artista que dispensa notas, entenderam isto. A ideia de aproveitarmos o lixo para criar arte é política, ambiental e economicamente urgente.

3. No meio desta nuvem solitária de lixos, em que vocês me abandonaram por Lisboa, anotei para memória de outros agostos:

Parto deste oriente invisível, onde me sento e reflicto, entalado entre duas escolas: um liceu e uma primária, que se mantêm caladas um verão inteiro, para agradecer aos lisboetas que vejo lá ao longe. Ide para a aldeia, para essa baixa entregue aos turistas da banheira, para o norte encher as ruas de Barcelos recheadas de euros vindos de França, para os montes das Beiras comer cabritos fluviais ou lá para as areias do sul onde se concentram todas as cidades numa só. Ide, mas ide tão rápido quanto esta necessidade da capital repousar. As sombras das vilas olissiponenses cheias de vírgulas por descansar. Ide mas voltai, pois sem essa torneira de gente Lisboa não seria corrente multicolor. Mas que durante este mês, querido para uns, amargo para todos (relembremos o que dizia Tólstoi sobre as famílias), agradecido recebo a oferenda dentro de uma cápsula em forma de cidade, que parece construída apenas para essa mesmo, a minha família, que aponta a uma sombra numa vila lisboeta:

4. Há toda uma poesia nesta sensação leve que por nós deambula. Poesia, palavra imersa em melancolias que me enxaguam o corpo. Brancas as nuvens e a toalha que voa sobre a mesa de pinho. O perfume das carnes grelhadas, as crianças por aí a correr, o vinho salpicando corações, a terra sacudida no ar. Aromas traduzidos pelas gargalhadas da nossa gramática familiar. A igreja mais alta observando-nos de frente. Sentados à mesa segura, na sombra desta vila lisboeta, começam a surgir gotas de possíveis memórias que os meus olhos felizmente seguram. Firmes. Os olhos como barragem imponente, comporta de sensações que não explodem, marinam. Apesar das sardinhas, dos chapéus de rede, das cadeiras que ficaram vazias pela avó e pelo avô, desta dança audível dos copos como violinos de cristal, apesar do cenário hollywoodesco. A vida imitando a arte neste almoço de domingo roubado à bella-vitta mediterrânea. Apesar da irrepetibilidade provável de tudo isto que me rodeia. Navega uma melancolia recordando aos meus olhos (que aguentam, aguentam) que talvez para o ano sejamos menos um, menos dois. Podemos até não nos reunir. Podemos não ter motivos para um sorriso como o que o tio Floriano esboça com as suas rugas. Algo invisível sobrevive nesta completude sentida e me relembra que tudo isto será breve, efémero e ainda outro qualquer adjectivo que explique este cheiro a final. E por ninguém gostar de finais, esquecemos os inícios. É, esquecemos que é por causa deste ponto final que a frase se escreve. Gosto-te tanto final, e Agosto em Lisboa sabe a conclusão de alguma coisa.

* Um velho do café interrompe-me e pergunta o que estou a fazer, O que estou eu a fazer, velho? Não vês que tento terminar esta reunião de palavras a que acordámos chamar crónica?

Veja mais sobre os trabalhos de Dualgo em: http://instagram.com/du.algo

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