Crónica

Francisco Mouta Rúbio

Lisboa, não sejas burguesa

24 de Outubro, 2022

Tinta por uma linha.

“Esqueçamos, por momentos, esse consumismo delirante e admiremos como o Tejo reflecte a ineficiência do belo”.

A oitava crónica de Francisco Mouta Rúbio, acompanhada pela ilustração do artista dualgo.

Há tempos colocava uma personagem a declamar assim, Um dia sem ouvir falar de dinheiro, por favor, será assim tão inoportuno pedir para não se falar em euros e dívidas apenas durante vinte e quatro horas?, e aqui devo suspender-me e acenar com a cabeça perante esta visão tão concreta, apesar de proveniente de uma personagem ficcional. Tentam convencer-nos, os especialistas e a publicidade que à nossa volta ciranda, da verdade absoluta: se não consumirmos não temos chance. Sem dinheiro gasto, somos os perdedores. Somos os esquecidos. Somos os habitantes de uma classe sub-humana, que até pode merecer uma marcha, um piquenique, mas somos apenas isso: os pobrezinhos. Sabemos desta moda simplista que vem de um outro continente. De Halloween em Netflix, de Superbowl em Black Fridays, suavemente incorporamos este neocolonialismo. Será esta a vingança histórica de terem sido colonizados por europeus? A moda dualista invade o oceano desde o país mais grandioso, mais rico, mais desenvolvido, mais feliz, mais, mais, mais o vencedor de todo o universo.

Esse campeonato de positividades, tão distante da nossa capital, não é connosco. Lisboa é terra de restos de tempo, de outras curvas por mais que nos queiram úteis. Esqueçamos, por momentos, esse consumismo delirante e admiremos como o Tejo reflecte a ineficiência do belo. Querem um belo exemplo? Na esplanada quieta ninguém me lia, ninguém se lia, toda a gente se ria e havia um espelho em forma de telemóvel encostado a cada nariz. “Nessas pequenas pátrias provisórias”, como apelidava Ruy Belo as deleitáveis esplanadas da nossa cidade literária, porque não nos sentamos a abrir visões líquidas? Apreciar a diversidade urbana junto a uma bica, uma água ou uma imperial, bebidas (ainda) a menos de um euro. Chocalhar os bolsos e observar os irrepetíveis rostos humanos, as árvores anónimas. Procurar na esquina dos versos de O’Neill os “olhos altamente perigosos” e esquecer “este modo funcionário de viver”. Parar a marcha e fotografar um graffiti que roube o lema sangrento de Emiliano Zapata: “Prefiro morrer de pé que viver ajoelhado”.

Parar a marcha e tropeçar na voz de uma mulher velha, criada numa Campo de Ourique onde se comiam ginjinhas tombadas das árvores. Penetrar uma dessas feiras onde tudo se troca nada se vende. Livros e roupas esquecidas como moeda. Perscrutar dentro de um bolso as expressões lidas, ditas, ouvidas. As palavras, palavras, palavras que temos e ninguém tem nada a ver com elas, nem Hamlet. E como elas, as palavras, se atropelam à segunda-feira de manhã no café? Quantas gargantas quietas um fim-de-semana inteiro aguardando por esse momento em que soltas e livres se estilhaçam pelo balcão de vidro? No local onde se trata a doença do nosso século, esses vocábulos gritados, que oiço lá de dentro, junto ao tal balcão, são remédio para acudir a solidão que a cidade engole inteira. Canta-se com outros trejeitos, Lisboa tu não és portuguesa, tu não és só para nós.

Cá fora, os nossos ouvidos animados para o espectáculo esquecido do amolador. Escutar a saudade, essa que nos obrigam a levar para todo o tempo. Sim, uma Lisboa menos burguesa, talvez esquecida, menos cintilante. Como definir esta orquestra aguda de melancolias com sabor a uma outra Lisboa? Decido fazer a pergunta ao profissionalíssimo afiador de espadachins que numa faísca me relembra a necessidade real, insensível a estas utopias poéticas, São cinco aéreos cada lâmina. Nem uma manhã aguentou o desejo da minha personagem. Insustentáveis desejos me abandonam. Deixo para a ficção os meus sonhos. Guardo dentro deste texto uma bolsa de lentidão escorregando entre os meus dedos.

Sei que perdemos a guerra há muito, afinal somos perdedores, mas salvo-me por detrás destas palavras sabendo já não ser possível salvar a cidade. Adiemos tudo porque nem tudo se compra, não é, Lisboa?

Veja mais sobre os trabalhos de dualgo em: http://instagram.com/du.algo


O Artéria é um projecto de jornalismo comunitário. É feito por voluntários, supervisionados por um jornalista profissional.

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