Um café adoçado com memórias

3 de Novembro, 2022

Reportagem

Inês Alegria Ferreira
Um restaurante situado num grande centro comercial de Lisboa pode parecer lugar improvável para a realização de uma ação de cariz social. Mas esse é, precisamente, um dos pontos de encontro do Café Memória. Um projeto solidário destinado a ajudar pessoas com problemas de memória ou demência, bem como os respetivos familiares, amigos e cuidadores. Uma iniciativa baseada na participação de voluntários, dando assim uma resposta comunitária a um dos maiores problemas de saúde atuais. A chave é o poder da palavra e da empatia.

É o primeiro dia do mês, 9h da manhã de sábado. As ruas estão calmas e já se sente uma brisa fresca. Quem está habituado a vir fazer compras ao Centro Comercial Colombo estranha rapidamente o ambiente calmo e silencioso desta manhã, pois as lojas só abrem às 10 ou 11 horas. O local de encontro é o Restaurante Portugália. À entrada, está o cartaz do Café Memória, sinal de que estamos no sítio certo.

O Café Memória é um local de encontro destinado a pessoas com problemas de memória ou demência, bem como aos respetivos familiares, amigos e cuidadores. Demência é um termo genérico utilizado para designar um conjunto de doenças nas quais existe deterioração do desempenho cognitivo e comportamental, condicionando a autonomia.

Inicialmente, o projeto era um conceito internacional, tendo sido mais tarde adaptado a Portugal – resultado de uma iniciativa de duas entidades promotoras, a Associação Alzheimer Portugal e a empresa Sonae Sierra, e de um conjunto alargado de parceiros. Agora são cerca de 23 Cafés Memória espalhados pelo país, sendo o de Portimão o último a ser inaugurado. A nível nacional e local, existem cerca de 70 parceiros e, ao todo, já foram feitas mais de mil sessões presenciais, 100 online e cerca de 700 voluntários já se juntaram ao projeto.

Ao entrar no restaurante, cada pessoa é calorosamente recebida por uma das coordenadoras. As reuniões são sempre orientadas por dois técnicos, que podem ser psicólogos, enfermeiros ou assistente sociais. Isabel Sousa (48 anos) e Catarina Alvarez (49 anos) fazem parte da equipa técnica que dinamiza as sessões do Café Memória Lisboa-Colombo, são psicólogas clínicas e são ainda coordenadoras da Rede Café Memória a nível nacional.

Encaminham-nos para uma mesa. Em cada mesa, existe um voluntário cuja responsabilidade é acolher os novos membros com uma folha de inscrição. Em pouco tempo, o restaurante, inicialmente vazio, começa a ficar movimentado. “Hoje, temos casa cheia”, diz Liliana, a voluntária da minha mesa.

“O voluntariado é um pilar essencial”, afirma Catarina. Todos os que fazem parte do Café Memória são previamente capacitados com formação. “Estamos a falar de pessoas em situações vulneráveis, daí termos muito cuidado em escolher quem se junta a nós. Tem de ter um determinado perfil e algumas ferramentas”, continua Catarina.

A psicóloga Catarina Alvarez faz parte da equipa técnica que dinamiza as sessões do Café Memória Lisboa-Colombo.

Quase a fazer 10 anos, esta iniciativa, que surgiu em abril de 2013, tem como principal objetivo não só sensibilizar a comunidade para a relevância das demências, diminuindo o estigma, como reduzir o isolamento social das pessoas afetadas pela doença.

Um grupo de amigos

Em cima de mesa, estão garrafas de água à disposição de cada um. Para além disso, a meio da reunião, que dura duas horas, dá-se uma pausa em que todos se podem servir de café, chá e sumo, bem como de bolo e de uvas.

Na primeira parte da reunião, jogamos um jogo de forma a todos ficarem a conhecer-se. Na minha mesa, está o José, que sofre de demência, a Leopoldina, esposa do Sr. José, e a Zaira, uma das fundadoras do projeto.

A boa disposição na sala é imediata. Apesar de se darem conversas entre aqueles que já se conhecem, rapidamente os novos membros também se juntam, como é o caso de Leopoldina e José. O objetivo do jogo é, a partir de uma lista de adjetivos, atribuirmo-nos uma característica. José, que nasceu no concelho do Sardoal e foi antigo combatente, diz ser paciente e aventureiro. Já Leopoldina confessa ser birrenta.

Segue-se um intervalo. Catarina explica que a pausa para café é muito importante “porque é aí que as pessoas partilham as suas dificuldades e estratégias”. A conversa é abundante e, numa questão de segundos, parecemos todos um grupo de velhos amigos que, enquanto tomam o lanche, falam das suas vidas.

José lança muitas piadas. Por exemplo, quando a psicóloga Isabel se perde a meio do seu discurso, José responde “também tem direito”, o que faz soltar uma risada geral. Leopoldina diz que, “já antes de estar doente, José era brincalhão, mas agora as pessoas que nunca o conheceram ficam na dúvida se ele está a brincar ou se é tolinho”.

Na segunda parte da reunião, é distribuído um livro gratuito que serve de manual auxiliar para os cuidadores informais. Depois da partilha de várias dicas presentes no livro e feitas algumas perguntas, é distribuído o questionário de satisfação. Isabel termina o seu discurso exclamando ao microfone: “Se esta foi a vossa primeira vez, voltem!”

Uma peça do puzzle


As sessões são extremamente informais, como facilmente se percebe, e pretendem ser um complemento à resposta técnica. “É necessária uma panóplia de soluções e respostas. Isto é uma peça do puzzle”, diz Catarina. Fomentando o convívio e tirando as pessoas de casa, o projeto pretende acabar com o isolamento, ao mesmo tempo que contribui para reduzir o estigma e aumentar a literacia relativamente à demência.

“Se não temos pessoas com demência na sala, isto não é um Café Memória. Pode ser um grupo de suporte para cuidadores, mas não é um Café Memória”, diz Catarina. “O que gostávamos era de ter mais oportunidades de falar com as famílias no seu conjunto”.

No Colombo, o encontro realiza-se no primeiro sábado de cada mês. No entanto, todos os sábados esta iniciativa decorre noutro local do país, com um tema sempre diferente da semana anterior. Para além disso, as sessões online mantêm-se e realizam-se de 15 em 15 dias.

Reuniões a partir de casa

São 10h30m, hora perfeita para quem ainda quer estar confortavelmente na cama e, de seguida, tomar um duche e aconchegar o estômago com um pequeno-almoço. À hora agendada, há uma comunidade que se coloca em frente aos ecrãs, sendo que para esta reunião basta ter um aparelho eletrónico com acesso à internet. O link está disponível para todos, logo na página principal do website da associação: www.cafememoria.pt. Basta clicar e somos direcionados para a plataforma zoom.

Apesar do atraso, antes das 11h da manhã, já estamos todos juntos a ouvir a representante da Alzheimer Portugal. Começamos com 25 participantes nesta reunião de Zoom. Grupo “pequenino”, mas que vai crescendo ao longo do evento. A participação é gratuita e sem marcação prévia.

Hoje, o tema da reunião é a condução. As convidadas fazem parte da Santa Casa da Misericórdia de Riba D’Ave e questionam como é que os participantes se sentem no ato de conduzir.

Durante a sessão, é sempre encorajada a partilha de comentários no bate-papo, que acaba por ficar repleto com a “voz” de todos. Uns revelam que usam de bom grado os transportes públicos, outros que são conduzidos de carro por outrem. No entanto, muitos são aqueles que confessam não conseguir ainda prescindir de conduzir, quer por não existirem transportes públicos de qualidade no local em que vivem quer simplesmente por não os saberem utilizar. Conduzir é, para a maioria, sinónimo de liberdade, autonomia, controlo das atividades do dia a dia e de participação comunitária.

Uma das participantes confessa já não ter os mesmos reflexos: “Há uma insegurança porque, de certa forma, não somos os mesmos”. Continua dizendo que não sabe andar de transportes públicos: “Foi uma vida toda muito independente. Este mês, comprei um passe numa tentativa de alterar aquilo que é preciso alterar. No entanto, estamos no dia 17 e ainda não andei de transportes.”

Determinar o quando deixamos de ser capazes é o mais importante. Estas reuniões são, por isso, apoiadas com tabelas e questões, a que todos podem responder no seu dia a dia e que ajudam a perceber se o indivíduo está ou não preparado para conduzir. A partir daí, as oradoras dão vários conselhos, como, por exemplo: diminuir a velocidade, conduzir apenas de dia, não conduzir na autoestrada e andar por locais mais perto de casa.

O Artéria é um projecto de jornalismo comunitário. É feito por voluntários, supervisionados por um jornalista profissional.

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