O lugar dos mortos também tem vida

31 de Outubro, 2022

Reportagem

Aurora Raposo, Joana Margarida Fialho e Laura Costa
Na entrada do Cemitério dos Prazeres, não há folhas no chão. Do lado direito o posto de segurança, do lado esquerdo a sala de espera. Em frente, um corredor largo encimado pela capela do cemitério.

Quem cuida de quem já partiu? Quem carrega as urnas até à terra? Quem acorda todos os dias para encarar a morte?

João Ribeiro da Fonseca é o encarregado do cemitério. Trabalha nos Prazeres há 46 anos. “Tenho 65 anos e escolhi esta profissão depois do 25 de Abril, porque estava desempregado”, explica. Começou como coveiro e, passados 14 anos, concorreu para o cargo de encarregado operacional.

Mas a história de João com os cemitérios começa muito antes da Revolução dos Cravos. Conta que, “desde gaiato, ia sempre ao cemitério.” Tanto a avó, como a mãe trabalharam no Cemitério do Alto de São João. A avó era empregada da limpeza e tratava da lavagem dos ossos. “Eu nasci no cemitério, já conhecia todos os velhotes que lá trabalhavam, mas é engraçado que, quando fui para lá, nenhum deles me ajudou”, relembra João.

Hoje é responsável pelo trabalho e pela segurança dos sete coveiros do Cemitério dos Prazeres. De manhã, há um briefing comandado por João. É preciso perceber o que há para fazer. Abrir sepulturas, fazer funerais, varrer ruas, aparar canteiros. Todas estas são tarefas dos coveiros. Os 12 hectares que compõem o cemitério estão divididos em sete áreas. Cada coveiro é responsável por uma e, caso não haja funerais, é com a limpeza das áreas que se ocupam.

João da Fonseca é o encarregado dos Prazeres e diz ser muito picuinhas em relação à segurança dos coveiros.

Situado no Bairro de Campo de Ourique, o Cemitério dos Prazeres foi construído em 1833 e é o segundo maior da capital. Ali juntam-se cerca de três mil sepulturas e sete mil jazigos. Este ano, a Câmara de Lisboa colocou 30 jazigos à venda em hasta pública. Depois de vendidos, estas pequenas edificações precisam de ser limpas, retirando-se os restos mortais para a cremação. É nesta altura que João e a sua equipa entram em cena. “O nosso trabalho aqui é, sobretudo, só jazigos e requer muita paciência, muita atenção”, explica o encarregado do cemitério. Há jazigos com mais de duas décadas, muito pequenos e com prateleiras podres. A retirada dos caixões é um trabalho perigoso, mas João garante que todos os coveiros são treinados para colocarem as pernas e os braços nos sítios certos e, caso não haja segurança, “nada feito.”

Licínio Fidalgo, coordenador do Cemitério dos Prazeres, explica que nos novos caixões a urna já é de zinco, mas os de chumbo podem pesar entre 300 e 400 quilos. Nos jazigos com dimensões muito pequenas, é difícil retirar e colocar urnas. Já nos de grandes dimensões, é necessário montar andaimes para que os coveiros possam fazer a deslocação dos caixões às costas. “De vez em quando, lá vai um dedo entalado, porque, mesmo com a experiência, há nódoas negras que ficam”, conta o coordenador. Hoje em dia, já existem máquinas que ajudam os coveiros, mas para Licínio estas nunca vão substituir a mão humana, já que em muitos casos “a máquina tem que ser o homem com a sua enxada.” Sem a mão humana, não há funeral.

Licínio Fidalgo é o coordenador dos Prazeres. Faz as visitas guiadas pelo cemitério.

O Caderno Reivindicativo dos Trabalhadores dos Cemitérios Câmara Municipal de Lisboa (CML), publicado em julho 2022, destaca a deterioração das condições de trabalho dos coveiros por “ausência do investimento necessário e adequado”, verificando-se “um retrocesso dificilmente aceitável numa sociedade moderna.” Para João da Fonseca, o mais difícil é a mudança das urnas para jazigos subterrâneos. No Cemitério dos Prazeres encontra-se o jazigo do Duque de Palmela, o maior da Europa, com capacidade para 200 urnas, construído em 1849. A segunda maior construção é o jazigo do Valle de Flor, com 64 lugares. Ambos dispõem de um piso subterrâneo. João garante que este último “é muito complicado, porque tem uma escada muito inclinada e têm de se colocar pranchas” para descer os caixões.

Carlos Silva tem 47 anos. Estudou artes gráficas e trabalhou na área até ao início da pandemia. Ficou no desemprego até que alguém lhe disse: “Vai para coveiro.” Está no Cemitério dos Prazeres há quatro meses. O nome técnico para aquilo que faz é assistente operacional. No final do mês, recebe o salário mínimo. “Cada vez há menos coveiros, porque não é uma profissão aliciante e o vencimento também não cativa”, declara Licínio Fidalgo. O Caderno Reivindicativo dos Trabalhadores dos Cemitérios da CML dá conta de que no Mapa de Pessoal da Câmara para o ano de 2022, “o número de trabalhadores-coveiros ronda os 92” e que a média etária destes “ultrapassa significativamente os 55 anos de idade.”

Tive de me fazer à vida e consegui entrar para esta profissão”, conta Carlos Silva.

As candidaturas para o cargo de assistente operacional regem-se pelos concursos da função pública. Licínio Fidalgo explica que os candidatos têm que se submeter a concurso, ser aprovados e depois realizar provas teóricas e práticas, como abrir uma cova e fazer uma exumação.

João da Fonseca recorda o dia em que abriu uma sepultura nos primeiros anos de profissão: “comecei a retirar as madeiras, quando às duas por três vejo uma pessoa a olhar para mim, desato dali a correr e só paro cá em cima ao pé dos encarregados.” O colega que o acompanhou de regresso à sepultura acabou por perceber que o morto tinha um olho de vidro e ninguém estava vivo dentro do caixão.

A exumação corresponde ao desenterramento da urna. Este procedimento só pode ser feito passados três anos do enterro. “Os coveiros têm uma técnica: tiram a tábua do meio do caixão, metem a mão à altura da cintura e puxam”, pormenoriza Licínio. Se o corpo se desfragmentar está em condições para ser levantado. Caso haja resistência, significa que ainda existem partes moles e que tem de voltar para a terra.

Em relação às sepulturas, há dois tipos: as temporárias e as perpétuas. As primeiras são camarárias e recebem só uma urna. O corpo só pode ser levantado quando estiver completamente decomposto. As segundas são familiares e podem receber mais do que um caixão. O encarregado do cemitério revela que estas “são mais difíceis de abrir, porque são muito fundas e, às vezes, é difícil trabalhar a terra que nunca foi mexida.” É um trabalho de enxada, picareta e pá.

Pormenor de uma secção de sepulturas perpétuas.

Tal como Carlos, Luís Freitas também estava desempregado quando concorreu à posição de trabalhador-coveiro. Trabalha nos Prazeres há quatro meses, mas esta não foi a sua primeira profissão relacionada com a morte. Antes de vir para o cemitério, trabalhou na funerária do cunhado. Diz que há diferenças. Explica que na funerária é psicologicamente mais duro por se ter de conviver diretamente com as famílias. “Não imaginam o que é que eu já vi na vida, o que é que eu já fui buscar ao instituto de medicina legal”, reitera Luís. Garante que para continuar a viver é essencial a separação entre o trabalho e o quotidiano. Com o tempo habituou-se e ganhou frieza. “Num funeral, não me veem deitar uma lágrima e, se for preciso, estou a ver um filme em casa e choro”, exemplifica.

“A minha maneira de pensar na morte é sempre a mesma. Aliás, eu tenho medo de morrer, tenho mesmo medo”, confessa Luís Freitas

Na parede da sala de convívio está a frase: “Trabalhadores invisíveis, mas essenciais para a sociedade”. “As pessoas pensam que nós não temos sentimentos”, afirma João da Fonseca. Quando surge o tema da discriminação, todos concordam: “antigamente, viam-nos como uns abutres.” Acreditam que o problema é cultural e que os outros países da Europa têm uma mentalidade mais aberta. A ideia popular do coveiro bêbado é um engano que João esclarece: “quando vim para esta casa, bebia leite e água ao pequeno almoço.” Luís relembra ainda o episódio no facebook de Carlos. Alguém comentou numa publicação do colega, em tom de desdém, o facto de este ser agora coveiro. A revolta de Luís é notória na maneira como fala: “É uma profissão como outra qualquer, trabalhamos e somos pessoas honestas.” Apesar de sentirem que não são vistos nem reconhecidos pela sociedade, sabem que, sem coveiros, não se enterram os mortos.

O Artéria é um projecto de jornalismo comunitário. É feito por voluntários, supervisionados por um jornalista profissional.

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