Crónica

Francisco Mouta Rúbio

Tinta por uma linha.

A nona crónica de Francisco Mouta Rúbio, acompanhada pela ilustração do artista dualgo.

– Então e é sobre isso que escreves nas crónicas da Artéria?

– Sobre o quê?

– Isso, o pós-colonialismo e a memória colectiva da nossa geração?

– Ah, não, não…

– Então?

– … escrevo sobre a nossa cidade, Lisboa.

Depois da acalmia de toda uma tempestade de nervos em que balouçava, com um microfone na mão direita, tentei explicar atabalhoadamente a uma mulher, que também se escreve (reforçando o meu esprit de l´escalier), sobre o que tento aqui escrever.

O que resulta afinal desta proposição de silêncios acumulados e me permite pulular as esquinas literárias de Lisboa? Atento me obrigo a preparar esta campanha quinzenal de palavras, enquanto sozinho e sentado voo num movimento colectivo gramatical. Lançar as perguntas em que tropeço pela calçada diária. Espalhá-las sem pedras pretas e brancas, na busca da cal cinzenta.

Quase a recortar a reta da meta de duas mãos cheias de crónicas ainda me perco entre sonhos sombrios, snobismos, tombos, vazios, feiras, casas sem gente, vizinhos e burguesias decadentes. A inquietação amarga povoando a nossa cidade. Lisboa talvez mereça um sorriso, um equilíbrio. Um reparo imediato que sinto ao regressar. Confesso como esta cidade nos permite ser felizes, por vezes.

Chegando ao aeroporto com nome de resistência, encolhido perante o desenfreado trânsito caótico aéreo, que sussurra frequências graves pelo coração da cidade a cada dois minutos, deparo-me com a famosa comparação do regresso. Quando nos ensinam que viajar é “ganhar mundo” referem-se a estes novos olhos notados ao volvermos ao ponto de partida, à casa-mãe.

Como o Nobel da Azinhaga nos ensina, Temos de sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós (ideia explorada, anos mais tarde, por Foster Wallace, através da parábola entre os peixes e a sua água). E como sabemos ter chegado realmente à nossa cidade? Onde começa e acaba a nossa Lisboa? Território de fronteiras largas (não tenho fé alguma nas placas de sinalização com os nomes das cidades) desenhadas entre caras fraternas de amigos e ruas desertas mal alumiadas, entre a poesia do sorriso dela e corações familiares, entre os cheiros desconcertados da língua e pratos esticando memórias, a nossa cidade encabeça-se nesse desenho a carvão imaginado, pessoal e (aqui sempre) transmissível.

Mas dizia que munido dos tais olhos novos consigo relativizar a turba desordeira de turistas pelas zonas baixas da cidade, até consigo perdoar os Kilas maus da fita, os bons malandros que escorregaram desde tenra idade nos esquemas que nos tramam a todos (métier merecedor de uma crónica sólida). Esse “ganhar mundo” avisa que talvez não sejamos o único povo com título de hospitaleiro do mundo, que o covid até teve uma passagem sem traumas tatuados nas gentes da nossa cidade, que as nossas livrarias são tão bonitas, tão bonitas e cuidadas, que a desorganização acontece nas cidades do Sul mas também acontece nas de boa reputação, que a nossa cidade está na cara da família, dos amigos, dos conhecidos, dos sons que chamamos casa.

Ir e voltar a Lisboa para desconstruir mitos. Ir e voltar à nossa cidade para erigirmos tolerâncias cinzentas, não aceitarmos as ideias pré-fabricadas por interesses alheios. Reapaixonarmo-nos pelas raízes das palavras, das pequenas atenções e não matar o desejo de ir e voltar a ficar.

Escrever Lisboa deve ser isto. Não ficar quieto e navegar no tempo e cor de uma cidade que não se deixa apanhar. Lá está o esprit de l´escalier, uma vez mais a manifestar-se. Carmen, se por algum acaso aqui atracares as tuas marés literárias, nota que encontrei a resposta demasiado tarde.

Veja mais sobre os trabalhos de dualgo em: http://instagram.com/du.algo

O Artéria é um projecto de jornalismo comunitário. É feito por voluntários, supervisionados por um jornalista profissional.

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