Crónica

Vitor Oliveira Jorge

“Como um corpo com que se faz amor”: Lisboa, Ulisses e Teolinda Gersão

24 de Março, 2023

Vitor Oliveira Jorge escreve sobre o romance A Cidade de Ulisses, da autoria de Teolinda Gersão, livro em que Lisboa serve não só como pano de fundo, mas também de inspiração. 

Com o romance “A Cidade de Ulisses” (2011), a bem conhecida escritora Teolinda Gersão tece uma série de narrativas habilmente encadeadas, ou esculpe, se quisermos, um corpo literário feito de uma imbricação de múltiplas matérias ou linhas discursivas que acabam por se fundir de forma notável, o que pode ser simbolizado por aquela frase que vem na pág. 225 do livro e de que me servi em parte para o título desta crónica: “Gravavas imagens de uma Lisboa imaginada e cobria-las de palavras, como um corpo com que se faz amor.” 

Toda esta obra é uma busca especificamente literária de “fazer amor com Lisboa” através de vários artifícios muito bem urdidos, e nos quais as personagens, a história de amor entre um homem e uma mulher em Lisboa, a questão da chamada fusão entre literatura e artes plásticas, o “lado ensaístico” de alguns trechos, bem como o mito de Ulisses e toda a tradição antiga que lhe está ligada, são apenas “pretextos”, suportes, embora importantes, para essa tentativa, esse desiderato, bem sucedido, claro, de uma Teolinda, em plena maturidade artística, erguer um grande “poema de amor” a Lisboa. 

E a ligação da literatura ao mito é evidente, como acontece sempre na relação amorosa: um mito, uma fantasia. É esse amor a Lisboa, tão impossível de abraçar como qualquer corpo na sua totalidade, a verdadeira “pulsão” (na minha perspetiva, claro) que leva à escrita deste livro, o seu “tema”, o seu “cimento”, o que o torna uma obra literária propriamente dita, uma narrativa romanesca sustentada e sólida, coerente, verosímil, viva. Um corpo.

Vejamos: a escritora coloca-se na voz, em primeira pessoa, de um homem que é um artista plástico, Paulo, e que ama, ao longo de toda a trama romanceada, uma mulher, artista também, Cecília, que corresponde ao seu amor. O livro é um longo monólogo desse homem solitário, como cada um de nós (mas não, de todo, com a solidão grandiosa mas algo triste de um Pessoa, que nos aparece aqui de relance, no seu “desassossego sossegado”… p. 33). 

As outras personagens são, afinal, figurantes. O amor que une Paulo e Cecília, na diferença de personalidades e de sensibilidades que entre si apresentam, não tem como mero cenário, pano de fundo, ou palco, a cidade de Lisboa, mas sim esta cidade aparece realmente como uma terceira personagem, um corpo que se entremeia nos corpos dos amantes, e que representa de algum modo a fantasia que está sempre presente no encontro amoroso, o qual, sabemo-lo bem, é inevitavelmente também um desencontro, feito de tensões, o qual, sem essa fantasia, não chegaria mesmo a acontecer…

A fantasia é o que sustenta a ideia utópica da complementaridade ou harmonia dos amantes, harmonia essa que, a existir realmente, seria inócua, desprovida de tensão, pois os tornaria indiferentes um ao outro, como tantas pessoas que cruzam as ruas, as artérias, e mesmo as vidas ou os diálogos, os intercâmbios efémeros dos habitantes de uma cidade, por muito bela ou atraente que esta seja. 

Paulo, que é tendencialmente um nómada, não gosta de amarras e tem uma história de família difícil, associa a presença da amada à cidade, quer aos lugares que percorrem juntos, quer mesmo aos pontos de vivência privada onde podem realizar a sua relação, despir-se sobre a cama para o amor, mas também conviver em projetos comuns, nomeadamente o de efetuarem uma exposição sobre Lisboa, materialização física, exteriorização, do seu amor, verdadeiro “duplo” fantasiado da própria cidade em si. Quando Cecília desaparece da sua vida, da vida do narrador monologante, Lisboa, a fantasia, desvanece-se também: “Um dia acordei com essa certeza: nunca irias voltar. E Lisboa desapareceu contigo.” (p. 179).

Porém, aquela exposição com que começa e acaba o livro é apenas um “pretexto” na imaginação de ambos, como se lê logo na pág. 15 (dito como sempre pela personagem masculina): “Mas de facto nenhum de nós tinha levado a sério essa ideia de fazer uma exposição sobre Lisboa. Era um divertimento, um jogo privado com que  desafiávamos a imaginação um do outro. Andávamos por aí, e olhávamos a cidade como se nos pertencesse e fôssemos construir alguma coisa a partir dela.” Mas de facto construíam: a sua história de amor, que é o que os faz permanecer juntos na cidade. 

E afinal a exposição é algo de muito importante na construção da teia narrativa: porque é precisamente o duplo da cidade desaparecida, o duplo da mulher perdida para sempre, o duplo do amor total irrealizável.

O estudo da riqueza deste livro… exigiria outro, e não é condensável numa pequena crónica. Porque há uma tensão permanente de opostos na escrita de Teolinda, como há um jogo de homologias, e é toda essa complexidade, todo esse entremeado, que a sustenta, que transforma uma história como outra qualquer numa obra de arte literária, que não pode deixar de tocar todos quantos amam Lisboa, ou a querem sempre redescobrir.

Imagem retirada da Encyclopædia Britannica. Ulisses é o protagonista da Odisseia, um dos grandes épicos da literatura grega

Aliás, a presença de Teolinda Gersão na literatura portuguesa contemporânea é bem conhecida e de extrema importância, em primeiro lugar, evidentemente, pela qualidade da sua obra, já bastante numerosa (seria preciso integrar este livro concreto nesse contexto…), e também pela sua originalidade e pelo grande impacto que tem provocado, quer em Portugal, quer no Brasil – onde tem sido objeto de muitos estudos – quer ainda noutros países/línguas em que está traduzida. Ouvi-la falar, e lê-la, o que é algo como um prolongamento da sua fala, liberta-nos, e isso é tanto mais interessante quanto se trata de uma mulher portuguesa que viveu mais de 30 anos da sua vida enquanto o nosso país, tradicional e machista, colocava o feminino num lugar deprimente e aviltante. 

Teolinda Gersão passa por cima disso, ajudada também decerto pelas suas estadias no estrangeiro, por uma história de vida pessoal longa e muito rica. E, com este seu livro “A Cidade de Ulisses”, ela insere-se na numerosíssima série de grandes escritores que tomaram a cidade de Lisboa como tema central, ou elemento despoletador, do (pelo menos numa parte) seu trabalho criativo. Desde o nosso bem conhecido Eça de Queirós. Multiplicando assim Lisboa por muitas Lisboas… e a autora acentua bem que Lisboa, por estar ligada ao mito de Ulisses e portanto à literatura, tem ela própria uma “raiz literária”…

A vida, nomeadamente a dos personagens deste livro, é um conjunto enigmático, sempre conjugado no singular, de intenções e de surpresas, de desvios e de encontros, que se sobrepõem, em estratigrafia complexa, como acontece nos solos que o ser humano foi habitando, uns por cima dos outros, uns entroncando-se nos outros. E no solo mergulhado na lenda “grega” da Lisboa, também.

O que Teolinda Gersão quis fazer neste romance, e amplamente conseguiu, claro, foi articular em corpo de ficção uma série de estratigrafias, em que a atualidade se mescla continuamente com o passado, com o futuro do presente, com o futuro do passado, com o passado do passado…. e por aí adiante… Esses modos do tempo humano estão sempre presentes em cada um de nós, voltados para o futuro. A arte do escritor de ficção é desdobrar-se em várias personagens, até elas se entroncarem umas nas outras, mesclando-se em estórias de vida com os seus dramas e sonhos, com as suas incompreensões, melancolias, lamentos, etc., toda essa gama de afetos que acaba por escapar a quem constrói o corpo da narrativa, essa escultura monumental, que ganha a sua autonomia.

Que neste caso, repito, é evidentemente Lisboa e a sua história, também mitológica (por vezes exposta por Paulo de forma quase “ensaística”), a qual existe decerto em todas as cidades, provavelmente em todos os lugares, sempre de modo peculiar. 

Porque o ser humano nunca abandonou a mitologia em favor da “ciência” dita “do passado” : uma auréola de névoa habita-nos, mesmo quando investigamos a fundo qualquer época, remota ou não. O essencial do acontecido perdeu-se, ficou esse nevoeiro da memória pousado sobre as coisas que julgamos saber: mas sem ele não saberíamos nada. A luz é o que cria sombra, obscuridade, em volta: e é sempre encarada segundo a subjetividade de cada um(a). Esse halo é fundamental e é o que distingue a obra de arte: não é possível resumi-la, ou reduzi-la a um esquema: são muitas as linhas de fuga que se entrecruzam, como neste livro.

A tarefa da escritora, nele, não era nada fácil, porque não se tratava apenas nem sobretudo de contar uma qualquer história amorosa, com os seus encontros e desencontros, com a sua radical impossibilidade – porque o amor de dois seres humanos, no sentido da fusão perfeita e durável,  é como sabemos, e como já se disse, qualquer coisa de impossível, embora Teolinda declare, para simplificar intencionalmente, que este  romance  é “uma história de amor” –  mas antes de as entroncar com a história mítica, como referi, da própria Lisboa. Estória inverosímil como a de todos os mitos, e contudo atuante sobre o imaginário das pessoas e das comunidades. 

A estratigrafia do enredo mescla-se com a estratigrafia de Lisboa, que sempre tem, como em todo o lado, as suas raízes mergulhadas nas águas obscuras, mas vivas na sua viscosidade subterrânea, do mito. Ulisses nunca esteve em Lisboa, pela simples razão de que, também ele, é uma personagem de ficção; a origem da designação da cidade poderia vir daí, mas isso pouco importa: foi talvez um modo de os romanos “enobrecerem” a urbe. Ulisses, o nómada, o que deambula, é o símbolo do viajante – seja ele habitante ou não – de qualquer cidade; e portanto de qualquer um(a) de nós, e dos próprios personagens do romance. 

Enquanto nas artérias de cada um dos protagonistas, dos membros do casal, corre o sangue que os anima e os faz viver, gozar e sofrer, nas artérias da cidade que percorrem ele, essa tensão, gera e atravessa as mais diversas situações e emoções. E o grande desafio de Teolinda Gersão era contar Lisboa, sempre permanente, não como cenário fixo mas como corpo vivo, através das figuras que imaginou e pôs em cena, com as suas histórias e memórias, dramas e adivinhados momentos de intimidade e prazer: essa sombra, essa auréola, que fascina quem lê.

Todo esse corpo, toda essa escultura, para não dizer arquitetura, está muito bem urdida nesta obra de Teolinda: vivência onde cidade e personagens se fundem mutuamente, e todas se juntam numa noite indiscernível, onde os amantes se escondem, fundo e fundamento da vida: águas enigmáticas onde corre sempre o tempo, onde se funde passado, presente, futuro, sonhos, dramas, frustrações e realizações, e finalmente os olhos, cansados, se fecham, os corpos cedem ao cansaço, para que, pelo menos uma parte da cidade, e um momento do(a) leitor(a), possam descansar, pousar também momentaneamente o livro, e  dormir. 

A autora refere que a história tem, em “A Cidade de Ulisses”, um final feliz. Mas esse fim é um sem-fim de perguntas, que o próprio narrador monologante, Paulo, exprime bem num momento derradeiro, como alter-ego da autora (p. 222). É preciso que Cecília morra para que a sua exposição, com o mesmo título do livro, finalmente aconteça, ou seja, é preciso que o empirismo das paixões acalme, se apazigue, para que a obra nasça. Para que Cecília reviva agora na história da arte, na história de Lisboa, como Lisboa “real e imaginada”, como se diz na pág. 240. E Sara, essa outra mulher viva para a qual agora voa, através do Atlântico, um Paulo já sarado das tensões de Lisboa, é apenas um ponto de fuga para que o romance tenha um fim. 

Pois, na verdade, tudo, e Lisboa em particular, tem sempre uma continuação qualquer. E a determinada altura é preciso pormos um ponto final para que outra frase comece, para que outro livro (ou crónica, no meu caso) possa eventualmente vir a acontecer, através de um nome, de uma nova viagem.

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