Neste ateliê, ser avó é sinónimo de criatividade

6 de Janeiro, 2023

Reportagem

Joana Margarida Fialho e Manuel Rocha Leite
A Avó Veio Trabalhar é um projeto lisboeta que promove o envelhecimento ativo. Saindo do metro em Arroios, a caminhada é curta até à porta verde-água do número 10 do Largo Mendonça e Costa, junto à Rua Morais Soares. É a mais colorida. Lá dentro, trabalham avós, em coleções “fora da caixa” que são vendidas ao público nacional e internacional. Dos 65 aos 87 anos, com energia e afinco, há um sorriso no olhar de quem gosta daquilo que está a fazer.

O ateliê A Avó Veio Trabalhar convida a entrar. Um espaço cheio de cor, com fotografias das avós, papel de parede com padrões, um casaco bordado pendurado no cabide, linhas, lãs, agulhas, tesouras, argila, cerâmicas, estantes cheias de tecidos prontos a usar.

Sentada à mesa do lado mais próximo da janela está a avó Teresa Sousa. Tem 78 anos e entrou no projeto há cerca de um ano e meio. Vai ao ateliê todos os dias. “Eu venho entusiasmada para cá, às vezes, chego às oito e meia da manhã; há sempre coisas novas para fazermos.” Enquanto fala, vai estando atenta à agulha que tem nas mãos. Está a fazer uma pega em patchwork. Com os óculos na ponta do nariz, vai explicando que o processo é como um puzzle, porque se tem de coser as peças uma a uma.

Agora, Teresa está a trabalhar numa pega em patchwork (Foto: Joana Margarida Fialho)

A voz de Teresa entristece quando fala nos centros de dia e nos lares. Para esta avó, o envelhecimento ativo é essencial e não é isso que vê nestas residências. O que vê são pessoas “sentadas a ver televisão“. Reconhece que este projeto é uma forma de tirar as pessoas dos sofás e das suas zonas de conforto para participarem em atividades “dinâmicas e desafiantes”. Além disso, é uma forma de combater a solidão. “A gente não morreu ainda; estamos vivas.”

Foi essa a realidade com que os fundadores do projeto se depararam nos centros de dia. As respostas que encontravam para as necessidades das pessoas mais velhas eram “deprimentes e pouco apelativas”, partilha um dos criadores do projeto, Ângelo Compota. Encontravam as pessoas a dormitar nas cadeiras dos lares e centros de dia, a ver “os programas da tarde que passam na televisão e a jogar cartas ou dominó”. Quiseram criar n´ A Avó Veio Trabalhar um contributo para o envelhecimento ativo, de forma a que quem tem 65 anos ou ser reformado “possa contribuir de forma ativa para a sociedade”.

A ideia de criar este projeto juntou Ângelo e a sua colega Susana António. Quando se conheceram em 2012, no âmbito de outro projeto social, “a empatia e química entre os dois surgiu instantaneamente”. Dois anos depois, criaram a Fermenta – a empresa “chapéu” de todos os projetos que estão a desenvolver.

Começaram pela freguesia da Misericórdia, depois de conseguirem financiamento por parte da Câmara Municipal de Lisboa. Foi no Centro Social e Paroquial de São Paulo que fizeram algumas pessoas trocar as mantas e os baralhos de cartas que tinham nas mãos pelos materiais vindos dos grandes sacos que Ângelo e Susana traziam. Ao início, a “linguagem disruptiva” dos dois chegou a 10 ou 15 pessoas. No entanto, o “passa a palavra” atraiu mais seniores e, em três meses, chegaram a três dezenas.

“Bora acordar para a vida?” Era o que Ângelo dizia a estas pessoas, que, em vez de bordarem figuras religiosas, passaram a bordar caveiras mexicanas.

Ângelo Compota criou o projeto em conjunto com Susana António. (Foto: Joana Margarida Fialho)

A Avó Veio Trabalhar foi pensada com base num “modelo de negócio social” em que, de seis em seis meses, as avós são a cara das coleções lançadas ao público. As tarefas são várias e vão desde tricotar, a fazer crochet e bordar. Este tipo de trabalho “era bastante procurado pelas gerações mais novas”. Foi então que criaram os workshops dados pelas avós, que ainda hoje se mantêm e são uma forma de transmitir aquilo que sabem aos mais jovens.

Um dos grandes marcos do projeto foi a passagem de um centro paroquial para um ateliê, na Rua do Poço dos Negros, no centro da cidade de Lisboa. Aqui, os turistas passavam pela rua “e achavam piada a este ambiente cool das avós”. Este foi o principal passo para a internacionalização.

O número de pedidos de clientes particulares foi crescendo, assim como o grupo de avós. A certa altura, viram a necessidade de mudarem de espaço. O momento coincidiu com uma “grande parceria publicitária”, que foi um dos principais contributos para a mudança de espaço.

Neste novo ateliê, em Arroios, os dois criadores do projeto conseguiram, graças às avós, avançar com o sonho inicial: “ter uma hub criativa para pessoas com mais de 65 anos, onde esta ideia dos louvores domésticos se pudesse fundir com uma linguagem mais contemporânea, nomeadamente o design, e criar esta capacitação e empoderamento das avós, no sentido de elas se sentirem ativas e inseridas na sociedade”, explica Ângelo.

Hoje, já são mais de 75 avós. Mas não se esquece a primeira de todas: Fernanda Martins, que tem agora 85 anos. Há avós que vão uma vez por semana, outras preferem ir todos os dias para o ateliê, onde ficam até ao final da tarde. Também há avós que preferem levar o trabalho para casa. Não há propriamente uma rotina definida, “como nos centros de dia”. Aqui, as avós têm liberdade de gerirem o seu trabalho. Só quando há residências artísticas é que há um horário a cumprir.

O projeto vai agregando pedidos de artistas diferentes, que vão fazendo também workshops com as avós. Assim, as várias coleções que estas fazem e os pedidos a que dão resposta têm todos formas e feitios variados. As lojas A Vida Portuguesa e da Fundação Serralves acolhem estes produtos e coleções, que também estão disponíveis online no site do projeto.

As avós não são remuneradas pelo trabalho, uma vez que o fazem voluntariamente. Ainda assim, Ângelo e Susana querem proporcionar-lhes experiências que, de certa forma, recompensem o seu trabalho e que fossem mais do que “um cheque de compras num supermercado”. A idade não define o espírito aventureiro destas avós, que embarcam em experiências radicais e andam pelo país a mostrar “as suas roupas cool” e o projeto de que fazem parte.

As manhãs são mais calmas no ateliê de A Avó Veio Trabalhar (Foto: Pedro Sadio)

Teresa destaca as 500 malas que fizeram com bordados de Viana do Castelo, cujo tema era a não violência contra as mulheres. Também relembra o ano em que fizeram um tapete de Arraiolos com 12 metros quadrados. Sempre com um sorriso no olhar, conta as aventuras que viveu devido ao projeto: “Fomos fazer escalada. Foi no dia 4 de outubro, no pilar número sete da Ponte 25 de Abril.” Além deste desafio, já fizeram surf, queda livre num túnel de vento, andaram de bicicleta, já foram ao teatro, ao cinema e à ópera e está planeada uma corrida de karts. “A idade não importa, é um número”, garante Teresa.

Ângelo está sentado do outro lado da mesa e lembra a participação das avós no festival Cem Soldos – realizado na aldeia com o mesmo nome da zona de Tomar e dedicado à música portuguesa. Fizeram merchandising para o festival e, durante seis meses, foram até à aldeia. Quem esteve envolvido no projeto teve a oportunidade de experimentar o ambiente festivaleiro.

Rosa Camemba tem 63 anos. Também está no ateliê há pouco tempo e, antes de aqui chegar, não sabia bordar. Agora, faz de tudo um pouco. Aprendeu, gosta daquilo que faz e tem orgulho nos seus projetos. As ideias para as atividades partem de Ângelo e de Susana, mas, muitas vezes, também as avós fazem parte do processo: “Às vezes, estou em casa, vem alguma coisa à cabeça, agarro na linha e começo a fazer”, conta a avó Rosa.

A avó Rosa juntou-se ao projeto em outubro de 2021 e encontrou no ateliê um refúgio (Foto: Joana Margarida Fialho)

O dia a dia no ateliê é sempre diferente, mas uma coisa é garantida: convívio constante, partilha de histórias de vida e conversas sobre as suas relações amorosas. Teresa lembra que há apenas uma regra bem assente: “não se pode falar de doenças”. O ambiente acolhedor traz “experiências únicas” para estas avós. Rosa não deixa de partilhar a gratidão que sente por fazer parte deste projeto: “Foi aqui que aprendi e vou ficar aqui até aos últimos dias da minha vida”.

O Artéria é um projecto de jornalismo comunitário. É feito por voluntários, supervisionados por um jornalista profissional. Saiba mais aqui: https://arteria.publico.pt/o-projecto/

TAMBÉM QUER PARTICIPAR?
Envie-nos um email para arteria@publico.pt, dizendo-nos que histórias quer contar ou como gostaria de contribuir para o Artéria. Terá sempre resposta.

Pin It on Pinterest