Crónica

Ana Ribeiro Nel

As escadas do metropolitano

23 de Setembro, 2022

Uma crónica de uma leitora do Artéria sobre o que, perante a azáfama quotidiana na cidade, muitas vezes se nos escapa. Ou, dito de outra forma, uma breve meditação a propósito de coisas que, parecendo carecer de motivo óbvio para prenderem o nosso olhar sempre apressado, se revestem de uma importância fulcral para outras pessoas.

Na estação do metropolitano passo por dois pedintes. Primeiro, uma magra idosa, as mãos nos joelhos e sentada sobre um jornal, um lenço na cabeça que lhe cobre o cabelo, talvez para que o cabelo não voe, mas hoje nem vento há, usa chinelos de quarto e meias que entala por fora das calças. Aos seus pés tem uma tampa redonda de metal, daquelas das caixas de bolachas onde a minha avó guardava as linhas de costura quando se acabavam as bolachas. Dentro da tampa estão duas moedas. A senhora olha os pés de quem passa, sem mover o pescoço, em silêncio.

Muitas pessoas sobem e descem as escadas do metro, umas parecem galopar. De vez em quando, sobe um mar de gente que trepa as escadas como se fosse a preia-mar sobre a rocha. Quando a onda de pessoas chega à superfície, dispersa-se. Uns tiram a máscara, outros acendem um cigarro que já vem na mão desde o interior da carruagem, há quem segure o telefone como se fosse um produto precioso, um casal de turistas abre um mapa da cidade e parece perdido.

Mais à frente, um homem cego está de pé, encostado a uma parede. Tem na mão um copo de papel e atrás de si pousou a bengala. Uma pessoa que se cruza comigo deixa-lhe no copo uma moeda. O cego agradece, retira a moeda e fá-la rodar sobre os dedos, com o indicador e o polegar, guardando-a de seguida no bolso da camisa.

Caminho por algum tempo. À minha frente anda uma mulher com umas sandálias de salto e os calcanhares gretados, tenta equilibrar-se na calçada e percebo que não deve estar habituada nem aos sapatos nem à calçada. Um arrumador de carros está parado num lugar vazio, à espera de um cliente.

Passo por um homem-estátua, uma criança dirige-se a ele, tímida, deixa-lhe uma moeda e ele curva-se numa vénia, a criança sorri e corre de novo para junto da mãe, que a espera de braço estendido. Pouco depois o homem-estátua faz um intervalo, deixa de ser estátua e passa a ser só homem, bebe um pouco de água, com cuidado para não estragar a tinta brilhante que tem na cara, como um atleta que se hidrata no meio de uma prova.

Continuo e de seguida encontro uma esplanada cheia de clientes, os empregados deslocam-se com movimentos precisos e bandejas carregadas de bebidas frescas e copos com gelo e rodelas de limão. Sento-me numa das poucas mesas vazias, sinto as pernas a latejar, bebo o meu café e oiço ao meu lado um casal a discutir. Ele tem uma cifose, braços enormes. Ela fala mais baixo, cabelo apanhado. Pausam a conversa quando fazem o seu pedido.

   Não estamos a discutir, pois não?

Levanto-me da mesa e logo um pombo ocupa o meu lugar. Um empregado apressa-se a recolher a minha chávena vazia, afugenta o pombo com um esbracejar e limpa a mesa. O pombo aguarda e volta a pousar no mesmo sítio.

Desço para o metro. A idosa magra já não está lá, porém, ficou lá o seu jornal no degrau onde se sentava.

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