Já nasceu a Lisboa do samba

10 de Junho, 2022

Reportagem

Tainah Ramos
Em sete anos, as rodas de samba passaram a ter uma programação que abrange todo o fim de semana na capital portuguesa. O Artéria foi conhecer este circuito em dinâmica crescente. E deixou-se inebriar pelo ritmo contagiante.

São 21h39 de uma noite de domingo na casa noturna Titanic Sur Mer, localizada no Cais do Sodré, mesmo em cima da margem do Tejo. A balada ainda está vazia, mas as luzes baixas e vermelhas com uma roda de cadeiras e instrumentos musicais ao centro anunciam a festa iminente.

Aqueles homens ali reunidos têm uma trajetória em comum, são parentes ‒ irmãos e primos ‒, brasileiros e vieram viver em Portugal há mais de uma década. A música está em toda a sua vida. Juntos, tocavam na terra natal desde os nove anos de idade. Até que, em 2015, decidiram reunir-se num projeto específico, o “Viva O Samba Lisboa”, por sentirem necessidade de uma cena desse género específico da música popular brasileira. Assim, tocam em roda até o sol raiar.

Um dos fundadores do “Viva O Samba”, Cícero Mateus, conta que o grupo se organiza quase como uma orquestra e procura ser abrangente nas sonoridades, com o máximo de instrumentos que uma roda possa ter, até mesmo os mais harmónicos, como violino e saxofone.

Cícero também afirma que o objetivo é fomentar a cultura do samba, que vai muito além do Carnaval. “Existe o ‘samba da alegria’, mas, às vezes, a música está a fazer uma crítica dura e as pessoas estão a rir. Trabalhamos para que as pessoas entendam o que está a ser cantado.”

Desse modo, o “Viva O Samba” está sempre a promover eventos e a convidar outros artistas para estimular a presença do ritmo em Portugal, tanto para que todos possam apreciar uma boa música, quanto para os brasileiros que querem conectar-se com a terra natal. “O país recebe pessoas de todos os lugares do Brasil, de estados em que o samba não é a música tradicional, mas vemos que, quando chegam aqui, começam a participar nas rodas para se religarem com o país por meio de um ritmo. Para mim, isso é lindo”, diz.

Tem boteco e, óbvio, tem samba

Ainda no Cais do Sodré, aos sábados pela noite, há uma rua bem carioca e, óbvio, com muito samba, muito pagode e muito funk. Parece um das ruas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, mas é apenas o Boteco da DRI, inspirado nos botecos da “cidade maravilhosa”.

Um boteco ou botequim é um pequeno estabelecimento conhecido por reunir pessoas boémias para beber, conversar e comer pequenas doses de comida. Em muitos desses locais, há música ao vivo e alguns apresentam mesa para jogo de bilhar. Por ser pequeno e local, costuma levar a alcunha de seu proprietário, como “Seu Zé”.

Mas, no Boteco da DRI, não há uma Dri como proprietária do local. O sócio do restaurante, Renato Santos, explica que o nome veio em homenagem à sua falecida tia, chamada Adriana. Ao fim, Dri tornou-se uma homenagem a todas as mulheres brasileiras. “O que vejo e sinto é que elas [mulheres brasileiras] se sentem bem e representadas quando estão aqui.”

Segundo Renato, a ideia do lugar é ter uma cena cultural que misture diversas expressões artísticas. “Sou do Rio, a minha construção foi da MPB [Música Popular Brasileira], é a música mais democrática. Um pouquinho de samba, nem sempre é uma roda, mas decidimos que todo o sábado deveria ter samba.”

Essa rua lisboeta que aponta para o Tejo, no fundo, é um canto do Brasil que veio para ficar. “É uma experiência de estar no Brasil para os brasileiros que estão aqui. Conheço portugueses que moraram lá e querem reviver isso, mas também pessoas de diversas nacionalidades que nunca foram, mas ouviram outras dizerem que é divertido e que o boteco é um pouco daquilo que dizem que é o Brasil.”

No mercado, à portuguesa

Se, para Cícero, o samba tem sido “a música que traz paz entre pessoas e povos”, para Renato, o verão em terras lusitanas remete muito para o Brasil e relembra que os brasileiros também têm uma ligação e um pouco do sangue e da cultura portuguesa.

Nessa mistura e neste verão, o samba em Lisboa já tem uma mãozinha portuguesa no Mercado de Sapadores. “Para mim, o samba é para um público de pessoas com energia boa, pessoas do bem, que se querem divertir”, resume Pedro Nunes, um dos idealizadores do Samba no Mercado, ao lado dos também portugueses Mauro Silva e Cristiano Ramos e do angolano Peterson André. Apaixonados por esse estilo, trouxeram o som do pandeiro e do cavaquinho ao tranquilo bairro da Penha de França.

O projeto está a acontecer pela primeira vez nesta primavera e início de verão, aos sábados pela tarde. O dia inicia-se com um almoço típico da culinária brasileira, como a feijoada, e estende-se até à noite, com uma roda de samba, em que é possível sentir toda a empolgação das pessoas em combinação com o fim de semana ensolarado.

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