O encanto dos “ninhos de árvores” num logradouro junto às Amoreiras

30 de Janeiro, 2022

Reportagem

Regina de Morais
Com o aumento gradual da consciência ambiental, multiplicam-se as iniciativas dos cidadãos para dar resposta à emergência climática e, no mesmo gesto, ao apego crescente das pessoas por espaços verdes. O Artéria foi visitar o Bela Flor Respira, outra forma de dizer “agrofloresta urbana de Campolide”. Um projecto comunitário onde o amor às arvores é o que une vontades. E elas são muito fortes.

Neste logradouro da Bela Flor, é sobretudo Joaquim Espada quem toma conta da pequena agrofloresta. Ele e outros da equipa, a vizinhança, os voluntários e alguns curiosos que vão lá por amor às árvores e trazem um ramo de estacas para experimentar plantá-las lá no seu bairro. Todos podem ajudar na labuta da poda, da rega, do plantio, da seleção de sementes, da compostagem, de limpar a horta ou os “ninhos de árvores”. E o que é isso de “ninhos de árvores”?

Aqui, “as árvores são plantadas em estacas dispostas em roda e bem juntas pelo benefício de competirem juntas pelo sol e, por isso, crescerem mais rápido, partilhando a terra mais húmida pela sua sombra e mais rica dos nutrientes que depositam no solo enquanto crescem, se regeneram ou morrem”, explica Joaquim, dando conta do que está em jogo no Bela Flor Respira, o projecto comunitário da agroflorestal de Campolide, dinamizado por um grupo de moradores e seus amigos.

No meio das grandes artérias de trânsito junto às Amoreiras, onde os carros aceleram rumo a sul ou ao Marquês, passando pelo velho casario que hoje cola com os novos prédios duma cooperativa de habitação e um bairro social, ali por detrás de uma bomba de gasolina que todos conhecem a caminho da praia, há um logradouro verde muito especial. Um logradouro de “ninhos de árvores”, onde germinam rebentos de nespereiras, choupos, amoreiras, pereiras, pessegueiros, freixos, figueiras, romãzeiras, loureiros, medronheiros e outras mais raras ou de nomes complicados.

Nem todas chegarão ao topo, nem todas sobrevirão, mas juntas constroem os patamares de uma floresta que abarca todas as espécies de plantas, incluindo arbustos saborosos e hortícolas com um ciclo de vida curto e sempre pronto para contribuir para o grande húmus. “A lei aqui é a da floresta e os seus ensinamentos preciosos”, diz Joaquim Espada. E é também por isso que o projeto de agrofloresta de Campolide é tão importante e significativo.

Lisboa precisa das árvores, muitas. Os lisboetas respiram, cada vez mais, o ar poluído do trânsito pendular dos que trabalham na urbe e nela não conseguem viver, dos aviões que rasam os edifícios próximo do aeroporto ou dos cruzeiros que aportam nas margens do Tejo, junto à cidade velha. Nunca Lisboa precisou tanto das árvores como hoje, porque só elas nos poderão devolver o ar puro e proteger-nos das alterações climáticas que se avizinham, porque se tarda em mudar o estado das coisas.

Só elas, as árvores, podem recolher as pessoas debaixo da sua sombra no calor extremo ou agarrar a terra com as suas portentosas raízes, evitando os deslizamentos provocados pelas chuvas intensas que assolam já algumas cidades europeias. Razão para as árvores serem cruciais em Lisboa. Por isso, a floresta de Monsanto e os logradouros, baldios e cada réstia de verde da cidade devem acolher as suas árvores. “Os ‘ninhos’ também são importantes na captação de água, facilitando a sua retenção e absorção pelas raízes”, confirma Joaquim.

A compostagem é feita de resíduos orgânicos das próprias plantas do logradouro ou dos restos dos moradores que, participando na labuta da terra, colhem daí ervas aromáticas, fruta e tantas hortícolas como alfaces, espinafres, beringelas, acelgas ou as couves. Produtos da terra que Arnaldo Reis colhe, deixando o seu cão à espreita da marquise, já cheio de saudades. “É sempre assim, quando venho aqui para baixo, fica numa lamúria”, observa. Porque o “Senhor Arnaldo” não falha ao trabalho mais duro no logradouro da Bela Flor e, em compensação, há sempre legumes frescos para usar na sopa. “Até de urtigas”, diz.

Já Simão Oliveira, que também vive no mesmo prédio, acaba de plantar mais de uma dezena de freixos  e choupos no grande canteiro-corredor, hoje defendido por uma rede laranja dos ladrões dos galos e galinhas – animais que aumentaram significativamente a prol e depenicam qualquer leguminosa ou hortense fresquinha. São danados nas suas investidas diárias, contudo, estão sob o olhar atento da vizinhança e são uma diversão para a criançada da creche ao lado que, mesmo conhecendo bem Joaquim, gritam pelos pulmões do cimo do escorrega enquanto ele poda as árvores. “Olha, olha, estão a fazer mal às árvores!”

Mas, na Bela Flor, não só se cuida da natureza, mas também das pessoas. Gente que o projeto soube envolver, espantando a desconfiança e receios iniciais dos moradores, convidando-os a integrar-se através do diálogo e trabalho de equipa, partilhando conhecimentos e o fruto desse trabalho, organizando convívios comunitários promovidos pela equipa da agrofloresta. Assim foram os dias da sopa, do magusto, da selecção das sementes e das conversas temáticas à volta de muitos assuntos, sob a sombra das árvores e a paz envolvente deste logradouro verde e tão diverso.

O Artéria pergunta como nasceu e se manteve este projeto numa cidade que descuida, tantas vezes, as árvores e deixa os logradouros e baldios sem qualquer cuidado, na vã esperança de rentabilizá-los para construção de edifícios ou parques de estacionamento. A resposta está na equipa da Bela Flor Respira e na sua proposta, assente, não só na sustentabilidade ambiental, mas também comunitária. Equipa feita por Joaquim Espada, que gere não só os meios no terreno, as técnicas, os aprendizes e, claro, o desenho de plantação assente na agricultura sintrópica – a sua área de formação -, garantindo a sustentabilidade do sistema pela escala, diversidade, ritmos de crescimento e necessidades de luz das plantas.

Junto dele estão, muitas vezes, Cátia Sá e Carolina Reis. A Cátia Sá, que se debruça mais sobre as atividades comunitárias, anda agora num corrupio na organização de workshops para crianças, envolvendo as escolas. E ainda é preciso tratar da divulgação, fazer contactos e ligações com colaboradores e instituições. Ainda bem que a Carolina está lá para ajudar nisso. E, claro, falta Cristina Sousa, o cérebro e o coração do projeto da agrofloresta de Campolide. Engenheira florestal no Departamento de Inovação da Junta de Freguesia de Campolide. Foi ela quem liderou a equipa na angariação do investimento inicial junto da Câmara Municipal de Lisboa – através do Programa Bip Zip (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária) – e, posteriormente, do financiamento europeu para a promoção de políticas sociais de inclusão e luta contra a pobreza, para a sustentabilidade ambiental e social no Mediterrâneo, conhecido por MedTown. Esse financiamento permitiu prolongar e enriquecer o projeto, tornando-o mais amplo e inclusivo.

Todos podem ir lá às quintas-feiras ,entre as 10 e as 19 horas. Não há muros nem chaves, pode-se entrar sem inscrição prévia, não sendo necessário ter conhecimentos na matéria. Quem ali chega é sempre bem vindo e convidado a aprender, deitando as mãos à terra e tarefas próprias e, claro, conhecendo pessoas que estão lá, se calhar, pelos mesmos motivos. É só querer.

Se quiser saber mais, consulte os links abaixo:

https://belaflorrespira.wixsite.com/agrofloresta

https://www.facebook.com/belaflorrespira

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