Há idosos isolados em Lisboa, mas uma associação dá-lhes mais proximidade

25 de Julho, 2022

Reportagem

Sofia Craveiro
Para combater o isolamento de pessoas idosas na zona histórica de Lisboa, a Associação Mais Proximidade desenvolveu um modelo de apoio “inovador”, assente na relação de confiança com os utentes. E isso permite encontrar respostas individualizadas para cada uma das pessoas que necessitam de ajuda. Solidariedade porta a porta, no coração da cidade.

Quem vai da Baixa ao Marquês de Pombal vê diferentes Lisboas. Entre algumas das mais nobres áreas da cidade, é diária a azáfama turística, que contrasta com o quotidiano laboral. Entre tuk-tuks, artistas de rua, turistas, restaurantes e lojas de conveniência, há um mundo de movimentos e cheiros que, a cada dia, se confundem por entre buzinas de carro e campainhas de trotinete. Muita coisa acontece no meio da multidão.

Com o movimento exacerbado pelo boom turístico, os edifícios fundem-se em blocos estáticos. Torna-se fácil ignorar que há diferentes tempos e velocidades no interior. Nem sempre foi assim.

Silvina Martins reside na Mouraria desde 1974, altura em que deixou Oliveira do Hospital. “Vim para ver Lisboa e fiquei cá”, conta. Aos 80 anos, relata vivências distintas na capital do pós-revolução. “Era tudo muito diferente”, diz. No bairro, multiplicavam-se os conhecidos com quem comentava afazeres. Era hábito juntarem-se no pequeno largo que tem diante da porta e assarem sardinhas pela altura dos Santos Populares. Por estes dias, as faces residentes substituem-se com mais frequência e a tradição foi-se perdendo. “Às vezes, andam ali os estrangeiros a tirar fotografias e, como veem aqui as fitas, pensam que há cá alguma coisa, mas não”, conta a antiga cozinheira.

A casa da senhora Silvina fica num segundo andar. Para lá chegar é preciso subir escadas íngremes de madeira côncava. Para sair, é preciso olhar o chão e confiar no corrimão velho. Antes de partir uma perna, em 2021, Silvina Martins tinha como rotina esta descida, única forma de rumar à pastelaria do fundo da rua ou ao supermercado da esquina. Costumava ir com as três amigas do costume, mas essa possibilidade deixou de existir. “Olhe, uma morreu, a outra já não pode das pernas – é espanhola, só sai com a filha – e a outra deu-lhe uma trombose”, conta. “Mudou tudo, não é Dona Silvina?”.

Silvina Martins reside no bairro da Mouraria desde 1974

A pergunta é de Ana Sousa, gestora de caso da Associação Mais Proximidade e quem nos acompanhou até esta residência. Ana conhece bem os hábitos da senhora Silvina, de tal forma que vai completando as frases que ela deixa por concluir. “Eu andar, até ando sozinha [na rua], mas apanhei muito medo e então esta calçada aqui à porta…”, relata a idosa. “Precisa sempre de um apoiozinho, não é D. Silvina?”. Precisamente. E é para isso que Ana aqui está.

Solidão no quinto ou no sexto andar

Em 2020, o Eurostat revelava que Portugal tinha 512 mil idosos a viver sozinhos. Apesar de tudo, quando comparado com os restantes países da UE, o nosso país conseguia ainda ser dos que tinha o menor número de pessoas desta faixa etária a residir em solidão. O caso da senhora Silvina é apenas um dos que integram a lista restrita da freguesia de Santa Maria Maior.

Aqui, as barreiras arquitetónicas ou os problemas de saúde limitam a vida de muitos moradores, que ainda assim preferem estar na sua casa a alojar-se em lares.

“Acaba por ser um problema que está muitas vezes associado às grandes cidades, porque é tanta a multidão, tanta a azáfama, que nos esquecemos que, no quinto ou sexto andar num prédio da baixa – portanto numa zona nobre e turística da cidade –, há pessoas que lá vivem”, explica Rita Roquette, responsável pela comunicação e angariação de fundos da Associação Mais Proximidade.

Ana Sousa e Rita Rouquette, da Associação Mais Proximidade

A organização, fundada há pouco mais de uma década, dedica-se a apoiar pessoas idosas, fazendo a ponte entre a necessidade e a resposta. “Vamos supor que temos uma senhora que, de facto, não consegue que as compras cheguem lá a casa. Não é necessariamente preciso que nós, internamente, as vamos lá buscar, mas, como conhecemos o território, conseguimos encontrar a solução” e fazer a ponte com a loja local, explica ao ARTÉRIA Mafalda Soure, presidente da direção e coordenadora-geral da entidade.

A responsável refere que o apoio prestado depende muito de cada caso e está forçosamente relacionado com o nível de autonomia individual. Se existem casos em que o necessário é encontrar quem possa entregar mercearias, noutros é preciso atentar nas tomas diárias de medicação, acompanhar pessoas a consultas médicas ou mesmo explicar aos profissionais de saúde o motivo de se deslocarem ali. “Percebemos que, de facto, praticamente ninguém fazia este acompanhamento em saúde”, diz Mafalda Soure.

O trabalho é individualizado e funciona com base numa relação de grande proximidade entre técnicas e utentes. O objetivo principal é conseguir respostas adequadas às necessidades de cada pessoa, sejam elas de saúde, mobilidade ou apenas companhia. O serviço prestado pode, por isso, abranger várias coisas: visitas ao domicílio, telefonemas regulares, saídas de casa acompanhadas, preenchimento de documentos ou contacto com outras entidades. As respostas necessárias são, assim, encontradas pela equipa, não sendo obrigatoriamente dadas pela mesma.

Mafalda Soure, presidente da direção e coordenadora-geral da Mais Proximidade

“Não fazemos o apoio domiciliário típico, ou seja, não fazemos higiene nem prestamos apoio na alimentação. O que fazemos é um bocadinho um complemento ao que os serviços domiciliários típicos oferecem”, explica Ana Sousa, junto à porta da senhora Silvina. “Somos uma rede de proximidade com outras instituições. Fazemos, por exemplo, a relação entre a pessoa e a equipa de apoio domiciliária, com o médico de família, com a vizinhança, com a junta de freguesia, ou seja, tentamos colmatar as falhas ou as necessidades que possam surgir no dia-a-dia”, explica.

No caso da senhora Silvina, foi necessário acompanhar o regresso a casa após o internamento hospitalar. Mesmo tendo alta clínica, a recuperação da perna partida exigia supervisão e acompanhamento, tarefa assumida por Ana Sousa. “Já a conheço bastante bem, apesar de não a acompanhar assim há tanto tempo”, explica. “O facto de ter vindo para casa mais debilitada fez com que a intervenção fosse um bocadinho maior ao início”. Num curto espaço de tempo, a proximidade desenvolveu-se a ponto de Ana perceber que a senhora Silvina tem sede só pela forma como mexe os lábios.

Cuidados de proximidade não reconhecidos

Por funcionar com base na colaboração, a Associação Mais Proximidade tem várias entidades como parceiros, nomeadamente a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Esta última reconhece a importância do trabalho desenvolvido, que muitas vezes também funciona como complemento ao apoio já prestado por esta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). “Alguns utentes do Serviço de Apoio Domiciliário, Centros de Dia e Equipa de Apoio a Idosos beneficiam da intervenção desenvolvida pela Associação Mais Proximidade, nomeadamente, visitas domiciliárias, contactos telefónicos, acompanhamento a consultas e exames médicos, comemoração do aniversário e integração em atividades e passeios culturais”, afirma a Santa Casa, numa reposta por escrito.

Apesar das vantagens já demonstradas, o acompanhamento nestes moldes não é, ainda, reconhecido pela Segurança Social, o que dificulta a estabilidade financeira da associação – que funciona com base em doações e donativos, cobrando uma taxa simbólica aos utentes. “A nossa resposta não é um serviço de apoio domiciliário, não é um centro de convívio, não é nenhuma das respostas tipificadas que a Segurança Social preconiza que podem ter acordo financeiro”, diz Mafalda Soure. “Somos, de facto, reconhecidos como IPSS e a Segurança Social reconhece o nosso valor e o nosso estatuto de utilidade pública, mas, como a nossa resposta não é tipificada, é uma resposta atípica, inovadora – cremos nós -, não se enquadra naquilo que são as respostas sociais”, diz a presidente da direção.

“É-nos dito, verbalmente, que, de facto, acreditam neste modelo. É um modelo que eu acho que é fundamental, que precisa de políticas públicas não só na lógica do financiamento e do investimento, mas também da replicação, porque as necessidades que nós acautelamos também existem no Porto ou no Alentejo”, acrescenta a responsável.

Por ser um acompanhamento personalizado, a ação que é feita pela Associação Mais Proximidade pode funcionar em substituição da acomodação em lares ou como complemento à mesma, dependendo dos casos. Excluindo em situações de demência muito agravada ou de uma dependência física maior, Mafalda Soure acredita que este modelo de apoio “é mais eficiente e, acima de tudo, é o que as pessoas mais querem”, já que se adapta aos hábitos e preferências de cada um (e não o contrário).

“Nós temos de respeitar e, acima de tudo, encontrar soluções que vão de encontro àquilo que as pessoas mais querem, sejam elas mais velhas ou mais novas”, acrescenta a dirigente. “Não nos podemos esquecer que a boa notícia é envelhecer”, remata a coordenadora da associação.

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