Um roteiro afetivo pela Estrada de Benfica

8 de Junho, 2022

Reportagem

Catarina Leonardo
É uma das artérias mais emblemáticas de uma certa Lisboa, sem dúvida, mas também uma daquelas mais frequentemente esquecidas. Apesar disso, tem uma vida muito própria e até os seus rituais. A personalidade bem vincada, aliás, provém de uma certa familiaridade. Uma moradora leva o Artéria a passear por aquele canto da capital.

Em Lisboa, é impossível alguém nunca ter ouvido falar, ou mesmo conhecer, a mais que famosa Estrada de Benfica. Localiza-se quase na periferia da cidade, entre o Jardim Zoológico e as emblemáticas Portas de Benfica, onde antigamente eram cobradas taxas a todos os que quisessem entrar na capital.

É uma estrada que possui apenas quatro quilómetros, pelo que, se a percorrermos de ponta a ponta, a uma velocidade constante, demoramos cerca de uma hora a atravessá-la a pé. Mas desafiamos quem quer que seja a conseguir tal proeza. Isto porque atravessar a Estrada de Benfica é um deleite para todos os nossos sentidos, existindo inúmeros locais onde apetece parar, observar, permanecer e trocar dois ou três dedos de conversa com as gentes do bairro.

A origem do nome

Muito provavelmente, terá sido devido a todo o charme da Estrada de Benfica que poderá ter surgido a lenda de que esta palavra possa estar ligada à expressão “Bem fica!“. Diz-se que D. João I doou alguns terrenos desta zona, onde antes se localizava o Paço de Benfica, à ordem religiosa dos dominicanos para a construção do Convento de São Domingos e que, numa visita ao local, terá exclamado: “aqui bem-fica o convento!”.

É uma boa história, de facto, e que certamente engalana esta freguesia na fronteira de Lisboa. Mas, por outro lado, também é possível que a origem da palavra Benfica esteja ligada à expressão árabe “Ben Fiqh”, que significa qualquer coisa como filho de religioso que lê e explica as Suras do Alcorão, atestando uma presença deste povo na região.

Independentemente da origem do nome, certo é que Benfica é uma zona lindíssima de Lisboa, onde cabem muitas realidades, com palácios e jardins antigos e lojas antigas, típicas de Lisboa, e outras mais. Vale mesmo a pena conhecer estas duas realidades paralelas que se entrecruzam na perfeição.

Palácios e jardins

Ao longo da Estrada de Benfica, deparamo-nos com vários jardins e palácios antigos, o que nos permite ter um vislumbre de um passado rural, encantador, quase poético, mesmo às portas do que seriam antigamente os limites da cidade de Lisboa. Aqui, as pessoas mais abastadas instalavam as suas casas de campo e quintas destinadas ao veraneio.

E se andarmos por aqui, sente-se todo esse ambiente. É um bairro cheio de vida, com uma comunidade fiel, onde os prédios altos com vários andares se misturam de forma harmoniosa com uma parte mais antiga, rural, nobre. Um charme especial.

Chafariz de Santo António da Convalescença

Comecemos pelo Jardim Zoológico, que fica no início (se formos precisos pelos números das porta) da Estrada de Benfica. Este espaço, que assume ter “um papel ativo na proteção e conservação da natureza”, foi o primeiro parque com fauna e flora de toda a Península Ibérica. Se começarmos a andar em direção às Portas de Benfica, reparamos que ocupa uma área enorme, ajudando a que esta zona seja mais calma no que diz respeito ao movimento que se desenrola à volta dos espaços de comércio.

Assim que chegamos aos vestígios do antigo Chafariz de Santo António da Convalescença, sentimos que o movimento pedonal começa a ser mais intenso. Há por aqui mais lojas, mais razões para circular, mais encontros entre vizinhos, mais conversas.

E é também por aqui que eu mais ando. Moro muito perto, pelo que frequento assiduamente toda este quilómetro que distancia o Chafariz e o Palácio Beau Sejour. É aqui onde vou comprar pão, beber café, onde vou à farmácia, onde paro para trabalhar com o computador ou onde almoço várias vezes.

Gosto de conhecer quem trabalha nas lojas, chamar pelo nome e que me conheçam pelo meu, e referir-me a alguns sítios como “os do costume”. Há velhotes que vão sempre almoçar aos mesmos sítios, conversar com os amigos, jogar às cartas, quase como se fossem uma grande família. E eu prefiro, de longe, frequentar todos estes sítios com mais alma, na minha opinião, onde vão os moradores mais antigos, do que aqueles mais elegantes, que não deixam de ser interessantes, claro, mas onde seria mais difícil meter conversa com quem aqui vive.

Uma vez, num café, conheci a podologista do Salazar. Já a tinha visto algumas vezes na mesa do canto, até que houve um dia que me sentei mais perto e meti conversa. No final, deu-me a morada e disse-me para a ir visitar e comentou: “se eu não estiver em casa, pergunta ao senhor do café que fica logo ao lado. Ele sabe sempre onde eu estou”. Tenho de a ir visitar!

Palácio Beau Sejour

Pertíssimo do café onde encontrei a senhora que acabei de referir, encontra-se a antiga Quinta do Beau Sejour, ou Quinta das Campainhas, que já foi propriedade da Baronesa da Regaleira. A zona é de acesso público e é relativamente pequena, existindo à frente do palacete um lago com meia dúzia de patos, um coreto e uma área ajardinada onde se vêm alguns pais com crianças. Já aqui vim passear com a minha algumas vezes. A absoluta tranquilidade que se sente sempre aqui contrasta na perfeição com o intenso movimento, de carros e de pessoas, na Estrada de Benfica.

Seguindo a pé apenas dois minutos pelo eixo principal, vamos ver uma das zonas que mais me encanta por aqui. É o Bairro Grandella, que rapidamente se destaca de todos os restantes edifícios à sua volta, pelas paredes pintadas a rosa e pelo seu tamanho e disposição.

O responsável pela construção de todo este bairro foi Francisco de Almeida Grandella, dono dos famosos armazéns Grandella e da fábrica que existia aqui em Benfica. Ele mandou construir estas casinhas com dois pisos, uma escola primária e creche para os funcionários da sua unidade fabril. Vale muito a pena fazer mais um desvio da estrada e percorrer todo este espaço.

Jardim da Quinta da Alfarrobeira

Perto do Califa, icónico restaurante e pastelaria, e do Centro Comercial Fonte Nova, encontramos o lindíssimo e recentemente renovado jardim da Alfarrobeira. Tal como vários outros locais já referidos, todo o complexo onde o jardim está inserido também era uma quinta. Mais um fantástico local que permite vislumbrar o que seria, noutra época, toda esta zona de Benfica.

Podemos ver que, neste momento, o antigo palácio se encontra ocupado pelos serviços da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica – é aqui a nova sede – e que os jardins são belíssimos. Para mim, esta foi uma bela surpresa, das mais recentes que descobri para os lados da Estrada de Benfica. Se procurarem um espaço bonito, calmo, até mesmo algo luxuriante, vão até à Quinta da Alfarrobeira. E é perfeito para crianças, pois tem um parque infantil recentemente inaugurado.

Mercado de Benfica

Umas centenas de metros mais à frente, um pouco antes do Mercado de Benfica, chamamos à atenção para dois locais muito interessantes. Um é o Palácio Baldaya e o outro o Parque Silva Porto, também conhecido por Mata de Benfica. Comecemos, então, pelo Palácio Baldaya – mais uma vez, inserido numa antiga quinta -, que deve o seu nome a Dona Maria Joanna do Rego Baldaya, que aqui viveu até à sua morte. Este local manteve-se longos anos encerrado, mas agora está recuperado, tendo-se tornado muitíssimo agradável. Aqui, encontramos um pátio interior com uma esplanada e várias salas no interior do edifício, ligadas ao coworking, à formação, ao estudo e a exposições.

Fazendo um ligeiro desvio da Estrada, chegamos ao Mercado de Benfica, local que frequento com a minha mãe desde que vim morar em Lisboa, há mais de 35 anos. De terça-feira a sábado, há para estes lados um autêntico corrupio. Este mercado tem uma enorme e variada oferta de carne, peixe, legumes e frutas, com boa qualidade e preços muito bons, quando comparamos com qualquer uma das grandes superfícies.

Apesar da oferta, já sei que, quando vou às compras, vou sempre a três locais do “costume”: à senhora de Nelas; ao velhote que tem sempre os melhores legumes e a uma banca próxima, onde compro sempre alguma fruta da época, tal como melancia ou meloa.

Mas o mercado não se encerra nas linhas definidas pelo edifício. Quem aqui vem vai à feira, que está logo ao lado, à procura das melhores ofertas, a um dos cafés do jardim ou comprar qualquer coisa às drogarias tradicionais. É todo um ritual.

A cinco minutos do mercado e a nove do Palácio Baldaya, localiza-se a Mata de Benfica, igualmente chamada de Parque Silva Porto ou Grão Vasco. Nestes quatro hectares, encontramos um parque aventura, um outro destinado a cães, uma área de merendas e muito espaço por onde caminhar.

Portas de Benfica

As Portas de Benfica identificam facilmente o fim da Estrada de Benfica, delimitando a linha que separa os municípios de Lisboa e da Amadora. Podemos ver oito torreões, ligados quatro a quatro, por paredes com várias portas e janelas. Noutros tempos, era aqui realizado o controlo dos bens alimentares que entravam na cidade, incluindo bebidas alcoólicas, pela Guarda Fiscal, e recebido o respetivo imposto, que tinha o nome de Real da Água. Cenas hoje difíceis de imaginar. O Aqueduto das Águas Livres de Lisboa foi financiado parcialmente pelo dinheiro obtido aqui.

Benfica é um bairro incrível, interessante, autêntico, que “esconde” a cada esquina jardins, palácios e palacetes que nos dão um vislumbre da sua antiga ruralidade e elegância.

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